quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Aquilo que você mais sabe ensinar, é o que você mais precisa aprender" (Richard Bach)


Medicina sem Deus é impossível. Não existe como lidar com a vida e não enxegar Deus a todo momento. Olhar nos olhos do ser humano e não ser grato a Deus é algo totalmente contraditório.
Seremos nós médicos tão prepotentes a ponto de nos ver capazes de realizar os milagres que vemos todos os dias? Seremos nós tão absurdamente presunçosos que conseguimos não acreditar em Deus??? Seremos nós tão frios a ponto de não nos sentirmos tocados todos os dias por cada vida exposta aos nossos olhos?
Apesar de eu ser apenas socorrista, posso acompanhar de perto algumas criancinhas que sempre voltam. Tenho uma paciente, chamada Maria Clara, que faz o meu coração pulsar forte todas as vezes que eu a atendo. Ela tem 3 aninhos e nasceu com uma síndrome que os médicos chamaram de cárdio-cutâneo-fascial. Na medicina, quando não sabemos ainda o diagnóstico de um quadro sindrômico, usamos os sintomas para identifica-lo. Nesse caso, essa menininha nasceu com uma "doença" que afetava seu coração, toda a sua pele e seu rosto. Além disso, a Maria Clara tinha problemas na fala e não poderia andar, segundos os especialistas que a acompanhavam.
Mas, Deus é maior que nossa cegueira diante dEle. A familia dessa pequena nunca desistiu dela. A Maria Clara foi levada a todos os profissionais que poderiam ajudá-la a se desenvolver, médicos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e psicólogos. Todos sempre a acolheram e acreditaram em sua recuperação. Mas, até os dois anos de idade, a Maria Clara ainda não falava, não andava, tinha a pele marcada e não havia um só fio de cabelo, um rostinho que fazia os desumanos e ignorantes se sentirem mal ao ver e não ganhava peso, o que atrapalhava em seu crescimento. Um dia, a sua sábia avó materna, talvez mais sábia que todos nós profissionais que convivemos com a Maria Clara, comprou pra ela uma bonequinha de cor escura, bem diferente de sua pele branquinha pra mostrar pra nossa garotinha o quanto somos todos diferentes uns dos outros.
Como qualquer criança, a Maria Clara levava a bonequinha para todos os lugares, inclusive quando ia ser consultada ou fazer algum tratamento. Toda vez que estava chateada e não queria colaborar já que devia estar cansadinha de tantos hospitais, os profissionais pegavam a bonequinha e fingiam estar fazendo nela o mesmo que deveriam fazer á Maria Clara. Isso foi fazendo com que ela permitisse os tratamentos, mesmo que fizessem com que ela sentisse dor. Todos acabaram adotando essa prática...
Um ano se passou...Hoje, a Maria Clara tem três anos, anda, fala, tem uma linda pele branquinha sem marcas, cresceu e ganhou peso, o rosto como o de qualquer criança e já começaram a nascer os primeiros fios de cabelo dourado. Os cardiologista já não encontram nenhum problema no coraçãozinho da Maria Clara e não existe qualquer disfunção em nenhum outro orgão. Ainda olham para a Maria Clara como deficiente, porque, infelizmente, o ser humano nunca vai deixar de ser tão ignorante. Ela ainda possui um atraso de desenvolvimento físico, mas usa da vaidade como arma pra calar até o coração mais gelado. Como diz o seu fisioterapeuta, ela mais parece uma adolescente, gosta de usar roupas combinando com o sapatinho, tem uma bolsa de cada cor e, agora já quer usar um lacinho nos seus "muitos" fios de cabelo.
A bonequinha está sempre com ela... Não tem nome, mas também se tornou minha paciente. Ela a chama de filhinha e expressa seus sentimentos através da mesma. Ontem, ela imitava a bonequinha chorando pra me contar que chorou a noite toda porque estava sentindo o corpo coçar. Ela estava com catapora, como metade das crianças, na primavera. Por que ela seria diferente?
A Maria Clara contou com a ajuda de muitos profissionais, mas, na verdade, ela é uma grande prova do poder de Deus e de nossa impotência diante a vida. Todos foram apenas instrumento da graça de Deus. Minha alma se arrepia diante a algo tão grandioso, meus olhos se enchem de lágrima cada vez que ela se despede de mim com um beijo, meu coração sempre torce pra ela voltar... Eu deveria ajudar a mudar a vida dela, mas é a Maria Clara quem ajuda a mudar a minha.

Um comentário:

Janine H. M. de Souza disse...

Nossa...
Que lindo!
Me emocionei... aliás, a vida é emocionante, né!?
Que Papai do Céu abençoe cada vez mais a vida e a saúde da Maria Clara. E que Ele te proteja e guie na sua profissão, amiga.