quinta-feira, 18 de março de 2010

"Eis um teste para saber se você terminou sua missão na Terra: se você está vivo, não terminou." (Richard Bach)


Decidi ser médica desde pequenina, não me pergunte o porquê, provavelmente, nesta época, eu nem sabia o que isso significava, mas eu sempre soube que seria médica.
Talvez por vocação, talvez tenha sido uma missão que Deus me confiou, não sei. Sei que não faria outra coisa...
Eu sou uma grande apaixonada pelo ser humano, gosto de observar, de analisar as pessoas, gosto do contato com seus dilemas, seus problemas, gosto de conhecer e aprender com realidades diferentes. Gosto de interagir, de sentir o ser humano. Gosto de poder estender as minhas mãos, gosto de perceber o alívio, o sorriso verdadeiro de quem se sente melhor de alguma forma. Curar nem sempre é possível, salvar nem sempre está em minhas mãos, mas dou toda minha paixão, minha loucura, minhas forças e, muitas vezes, mais do que meu corpo pode suportar em prol disso.
Não sei aceitar um não tão fácil assim, não sei me calar quando talvez eu seja a única a poder falar, não consigo engolir a idéia de que a dor de uma pessoa não é problema meu, não sei deixar de sofrer ao ver e ouvir a realidade e não ter alcance pra interferir, não sei ficar indiferente em ver a vida ir embora quando simplesmente não há mais o que ser feito.
Escolhi ser médica, mas talvez fosse a última profissão que eu deveria ter escolhido. As pessoas nunca vão compreender, mas a medicina é algo que vive com você o tempo todo, em qualquer lugar, até nos sonhos. Me dizem que amadurecer é deixar de sentir o outro como responsabilidade sua. Nunca vou amadurecer...
Não é fácil fazer medicina. Não existe mais respeito, educação, solidariedade, compreensão. Ninguém se importa com o paciente que está ao lado, desde que o problema dele seja resolvido. Ninguém se importa com nós médicos, desde que sejam servidos da forma como desejam. Não consigo dormir algumas vezes, pensando em como poderia ajudar alguém, sabendo que esse alguém pouco se importa se estou sentindo dor, se tenho problemas em casa, se estou horas trabalhando sem parar.
Mas, continuo me importando. Continuo sofrendo pelo ser humano. Continuo com o coração apertado quando vejo o sofrimento de uma mãe que vive em função de cuidar de uma criança doente. Continuo com o estômago embrulhado quando vejo uma criança violentada, abusada sexualmente, muitas vezes pelos próprios pais. Continuo sentindo raiva quando vejo a negligência com que as crianças são cuidadas e com a ignorância com que são educadas. Continuo chorando quando vejo uma criança, na chuva, pedindo esmola, tremendo de frio, enquanto muitos se preocupam com mesquinharias e, na realidade, deixam de lado até mesmo a criança que está dentro da sua casa.
Se pra ser uma boa médica é preciso deixar tudo isso dentro do hospital quando o plantão acabar, nunca serei uma boa médica. Se a experiência vai me fazer parar de fazer o trabalho dos outros se isso for preciso pra ajudar a salvar uma vida, prefiro ser sempre a novata. Se o tempo vai me fazer olhar com menos cuidado, examinar com tanta segurança a ponto de deixar de questionar, de investigar, de pedir ajuda, sempre serei a recém-formada com medo de errar com a vida do outro. Se não posso chorar junto com uma mãe que perdeu o seu filho, prefiro não ser médica.
Cansa muito, é irritante, ensurdecedor ouvir crianças chorarem o dia inteiro, é desgastante ficar a noite inteira acordada principalmente pra atender bobagens porque pais não querem cuidar do que é seu, é cruel ouvir injustiças depois de tanto que você fez por alguém, é desanimador ser questionado por sua conduta depois de tantos anos de estudo e dedicação, é revoltante ter que lidar com a impaciência de quem ignora o termo emergência e causa transtorno se o atendimento está demorando porque alguém está correndo risco real de vida e os profissionais estão voltados a salvá-lo, é torturante ter que discutir e ouvir desaforos por um sistema de saúde que não funciona e nada ter a ver com você, e trabalhar o tempo inteiro nesse clima quando você precisa de calma e concentração pra fazer bem o seu trabalho, afinal eu sou uma socorrista.
Mas, indepentende disso, eu sou apaixonada pela vida e vou continuar sofrendo pela vida, mesmo que sufocada dentro do meu próprio corpo. Vou continuar chorando, lá no fundo do meu peito, porque amo a medicina com a alma e a vejo ser desvalorizada, quando não há maior sentido do que a vida. No dia em que o meu coração deixar de doer ao lidar com tudo isso, no dia em que eu deixar de protestar, mesmo que nada possa fazer, ou minha vida deixar de ser tocada pela medicina ou pelo ser humano, parte de mim, com certeza, deixou de de existir...

Um comentário:

Priscilla Aparecida disse...

Meu nome é priscila acho a sua profiçao a mas linda do mundo e se todos os medicos agisem como vc tudo seria melhor parabens